O que são as Perturbações do Espectro do Autismo

Pensa-se que as Perturbações do Espectro do Autismo sejam "perturbações globais do desenvolvimento, constituindo condições neuro-psiquiátricas que apresentam uma vasta variedade de expressões clínicas e resultam de disfunções multifactoriais de desenvolvimento do sistema nervoso central" - Descrição do Autismo - Autism-Europe (2000) Barthélemy, C.,Fuentes, J.,Van der Gaag,R.,Visconti, P.

autismo2As características da doença só se revelam quando a criança cresce. Nasce-se com ela e, até hoje, não há cura, no entanto é possível melhorar a qualidade de vida e proporcionar a realização de aprendizagens. Existe uma vasta variedade de expressões clínicas, não existindo regras fixas e, embora haja características que o ajudam a identificar, o autismo difere muito de criança para criança. Muitas crianças não correspondem àquilo que se espera do autismo no início de vida, como irem ao colo, dar respostas, olhar nos olhos.

Nos anos '60, realizaram-se muitos estudos científicos. Mais tarde, Wing, uma pedopsiquiatra com uma filha autista, e Gould fundam alguns centros e descobrem, em 1979, a Tríade das Perturbações quando, num estudo que realizaram em Cambaruel, chegam à conclusão que a doença surgia em qualquer classe social e que as mães eram todas muito diferentes. Esta Tríade apontava para o compromisso de três domínios de desenvolvimento:

  • Domínio Social:
    • Um afastamento e perturbações no desenvolvimento da interacção recíproca;
  • Domínio da Comunicação e Linguagem:
    • Restrição de comunicação verbal e não verbal (não dominam a linguagem, a expressão das emoções, uso frequente da ecolália);
  • Domínio do Comportamento e do Pensamento:
    • Um problema no domínio cognitivo (dificuldades de aprendizagem, rigidez de pensamento, não usam o jogo simbólico, dificuldades em todo o domínio cognitivo, de pensamento e de percepção, atraso intelectual e repertório restrito de interesses e de comportamento).

O Autista ao longo da sua vida

Quando ainda são bebés, não manifestam interesse pelas pessoas, têm medo de objectos, têm problemas de sono, de choro, apresentam idiossincrias, movimentos repetitivos, como as mãos (flapping), batem com a cabeça, existe uma ausência do jogo simbólico. É importante reconhecer a importância de permitir os movimentos repetitivos. A não ser que estejam a colocar a segurança da própria criança ou das outras em risco, ou que estejam a impedir as aprendizagens, estes movimentos são considerados uma espécie de "escape" para o stress e constituem um alívio ao nível cognitivo.

Entre os dois e os cinco anos, apresentam grandes dificuldades na linguagem ou mesmo a sua ausência, o discurso não é funcional, fazem ecolálias e invertem os pronomes.

Na adolescência, além dos todos os problemas inerentes a esta idade, continuam os problemas de comportamento, podem tornar-se auto-agressivivos mas, por vezes, conseguem melhorar, nesta fase, as suas relações intersociais.

No adulto, as características podem atenuar-se e há boas probabilidades de melhoras caso o QI seja alto.

No idoso, costuma existir mais problemas, pois não gostam de se mexer e não compreendem a importância para a saúde de fazerem algum exercício. Quanto menos comorbilidades tiverem, melhor é. Outro factor que, por vezes, pode influenciar é o efeito de algumas medicações de longo prazo. Certos medicamentos têm sido prescritos sem se saber ao certo quais os seus efeitos e, quando o autista chega a esta idade, pode ser influenciado pelas suas consequências.

Diagnóstico

O diagnóstico é difícil pois não tem marcadores biológicos. Só em casos mais extremos se percebe cedo, como problemas severos de sono, com a comida, muitos gritos, entre outros. No entanto, na maioria dos casos, os bebés são "normais" e só com a avaliação do comportamento e da linguagem é que os problemas se revelam.

autismo1O que fazer?

Não há cura, no entanto existem muitas coisas que se podem e devem fazer pela qualidade de vida e aprendizagem contínua por parte da pessoa autista, como: intervenção precoce, estimulação das competências sociais e comunicativas, educação, redução dos comportamentos de risco, acompanhamento, implicação dos pais e família em todo o processo e a criação de serviços adequados. No campo da saúde e da educação, é necessária uma boa experiência de diagnóstico, utilizar instrumentos bem validados, bem como testes para caracterizarem um perfil de funcionamento de modo a fazer-se um programa individual. São muito importantes os cuidados primários de saúde, o recurso às terapias ocupacional e da fala e a programas de atendimento ao domicílio. Alguns dos instrumentos mais utilizados para promover a comunicação, nestas pessoas, são: PECS, PIC, SPC, Bliss, Macaton e TEACH.

Obter-se um diagnóstico é muito importante para se definirem os planos de apoio personalizados que devem ser reavaliados e adaptados constantemente. Também as famílias e comunidade necessitam de apoio para proporcionar um bom ambiente que propicie o desenvolvimento de todo o potencial da pessoa autista. Porém, o diagnóstico altera-se consoante as comorbilidades. Estas são problemas comportamentais e psiquiátricos associados, como a epilepsia, a agressividade, entre outros.

No autismo, é de extrema importância perceber quais os pontos fortes e fracos de cada um para se poder incidir mais nos fortes e utilizá-los a favor da pessoa e da sua aprendizagem. Esta decorre com muitos mais resultados se for consequência de actividades de interesse para a pessoa. Procura-se, assim, explorar os interesses específicos dos autistas, de forma a fazê-los sair das suas estereotipias. Desta forma, para cada autista é necessário usar-se metodologias diferentes ou combinações de metodologias para que surtam efeito. Não existe uma só terapia para todos os autistas, pois apesar de terem todos sintomas em comum, todos eles apresentam características diferentes.

Para mais informações, consultar o site da Federação Portuguesa do Autismo